MARINHO CELESTINO DE SOUZA FILHO[1]
Introduçã
Pretendemos, nesse trabalho, tratar sobre o ensino-aprendizagem de nossa língua materna.
Dessa forma, o nosso principal objetivo será mostrar algumas características no que concerne ao funcionamento da Língua Portuguesa, comparando-as com o funcionamento da Inglesa.
Nesse sentido, a relevância desse trabalho consiste em propor, a partir das diferenças e semelhanças entre a Língua Portuguesa e Inglesa, sugestões que acreditamos melhorará a qualidade do ensino-aprendizagem da nossa língua materna.
Sendo assim, adotaremos o seguinte critério para a construção desse texto:
a. Primeiramente trataremos da importância de se estipular previamente objetivos para o ensino-aprendizagem de nossa língua materna, dessa maneira, tentaremos, no transcorrer desse trabalho, responder às seguintes questões: por que ensinar língua materna a quem já fala com propriedade sua própria língua? Não seria mais fácil, mais lógico e coerente ensinar qualquer outra língua estrangeira?
b. Mostraremos ainda algumas concepções de gramática e de linguagem.
c. Discorreremos também sobre alguns conceitos de literatura e um conceito de cultura, que acreditamos serem importantes para a constituição desse estudo.
d. Faremos uma breve exposição sobre algumas semelhanças e diferenças morfológicas, sintáticas e semânticas entre a Língua Inglesa e Portuguesa, além disso, tentaremos propor um conceito de tradução que pensamos ser mais adequado no que tange à tradução do Inglês para o Português.
e. E para finalizar, teceremos as Considerações Finais acerca desse trabalho.
Objetivos do ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa: por que ensinar a língua materna a quem já a utiliza com certa propriedade? Não seria mais lógico ensinar uma língua estrangeira?
Esta questão possui em Travaglia (1996) quatro possíveis respostas:
1ª) Desenvolver a Competência Comunicativa dos usuários da língua, isto é, a capacidade do usuário de empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação.
A Competência Comunicativa estaria intimamente ligada com outras duas: a Gramatical ou Lingüística e a Textual.
A Competência Gramatical seria a capacidade do usuário da língua (falante/ouvinte, escritor/leitor, enunciador/enunciatário) de gerar seqüências lingüísticas gramaticais e aceitáveis.
Por seqüências lingüísticas gramaticais deve-se entender: seqüências lingüísticas aceitáveis, bem formadas, de acordo com regras intrínsecas da língua, como por exemplo:
a) O garoto está feliz.
b) “Nóis vamo pega as goiaba.”
c) “As moça de Rondonha é linda”.
Não se deve levar em conta nestes tipos gramaticais de sentenças juízo de valor, conceito esse que será retomado por nós mais adiante.
Sendo assim, as seqüências lingüísticas aceitáveis estariam intimamente ligadas com as gramaticais, porque quanto à aceitabilidade, teríamos seqüências lingüísticas admissíveis, aceitáveis como construções possíveis dentro do nosso sistema lingüístico, portanto, a aceitabilidade e a gramaticalidade estão intimamente ligadas e uma não existe independente da outra, lembrando ainda que para esses dois critérios não se deve levar em conta o que chamamos anteriormente de “juízo de valor lingüístico”, que seria supervalorizar uma variedade lingüística (no nosso caso, a dita padrão) em detrimento de outra variedade lingüística, a saber, a popular. Desse modo, vejamos:
‘a)[2] *“O está feliz garoto”.
‘b) * “Nóis as goiaba pegá vamo.”
‘c)* “As é linda moça de Rondonha”
Estas três sentenças são agramaticais e inaceitáveis, já que ferem a boa formação, estruturação da língua, acreditamos que sentenças como a’, b’, c’ seriam construções quase impossíveis a falantes nativos do português, a não ser que se estivesse na fase de apreensão e aquisição da linguagem, mesmo assim seria praticamente impossível a estes falantes construírem sentenças como a’, b’, c’ por causa da gramática internalizada, mas construções como a’, b’, c’ poderiam até ser admitidas por estrangeiros que estariam apreendendo português.
Já a Competência Textual seria a capacidade dos usuários da língua (locutor/ouvinte, escritor/leitor) de em situação de interação comunicativa compreender, produzir, textos considerados bem formados, valendo de capacidades básicas que segundo Charolles, um dos principais estudiosos da Lingüística Textual, seriam necessariamente as seguintes:
a)Capacidade Formativa – possibilita aos usuários compreender e produzir um número de textos basicamente ilimitados, além de poder avaliar a boa ou a má formação dos textos dados, isto é, poder ser capaz de dizer se um enunciado lingüístico é ou não um texto de acordo com critérios de textualidade previamente estabelecidos.
b)Capacidade Transformativa seria a possibilidade de os usuários da língua modificar de diferentes maneiras um texto: parafrasear, parodiar, resumir, etc.
c)Capacidade Qualificativa seria a possibilidade de os usuários poderem dizer a que tipo de texto pertence um texto dado, se é uma receita de alimento ou remédio, um ofício, uma carta, romance, reportagem, uma narração, uma descrição, uma argumentação ou dissertação, etc.
Por conseguinte, faz-se necessário para realização desse primeiro objetivo embasar o ensino-aprendizagem do português na produção, compreensão de textos, os mais variados possíveis.
Na segunda resposta são englobados mais dois objetivos que são ou deveriam ser preocupações nossas, professores de português, isto é:
a) levar o aluno a “dominar” a norma culta ou padrão;
b) ensinar a variedade escrita da língua.
Estes dois objetivos se justificam, porque quando um aluno começa a ir à escola pressupõe-se que já domine a norma coloquial e ainda por razões políticas, sociais e culturais, deve-se ensinar a variedade escrita da língua, porém o ensino do português não deve se restringir, exclusivamente, somente a estes dois objetivos, já que nem sempre o falante/ouvinte, escritor/leitor estarão utilizando, unicamente, a norma culta ou escrevendo.
Assim sendo, admitimos que esses dois objetivos são mais restritos do que realmente se pretende: desenvolvimento da Competência Comunicativa, já que se almeja que o usuário da língua seja capaz também de utilizá-la nas mais diversas situações possíveis de interação, considerando o contexto sócio-histórico-ideológico no qual o sujeito está ou não inserido.
A terceira resposta diz que um dos objetivos do ensino da nossa língua materna é levar o educando ao conhecimento da instituição lingüística, social que a língua é, ao conhecimento de sua forma e função, esse conhecimento seria importante na mesma medida em que se considera importante reconhecer outras instituições de nossa sociedade, ou melhor, casamento,religiões, justiça, congresso, instituição bancária, etc. É o que Perini(1988, p.24) chama de “Conhecimento Cultural”, ou seja, “saber que correr é um verbo e que Colombo descobriu a América em 1492.”Este tipo de conhecimento ainda é conhecido como Conhecimento de Mundo ou Extralingüístico.
A quarta resposta propõe que o ensino do português seja embasado também no que se denominou de Atividades Metalingüísticas, isto é, ensinar gramática normativa, não obstante deve-se lembrar que não existe um único tipo de gramática, ou melhor, não existe somente a gramática ensinada pela escola, para aprofundar mais esta questão basta consultar os livros que citaremos ao final desse estudo.
3. Concepções de gramática e linguagem
Existem vários conceitos de gramática, porém, mostraremos somente três que pensamos ser relevantes para esse estudo a que nos propomos, por isso, vejamos como Possenti (1996:62-64) trata desta questão: “1 – Conjunto de regras que devem ser seguidas; 2 – Conjunto de regras que são seguidas; 3 – Conjunto de regras que o falante domina.”
Esses três conceitos de gramática poderão gerar três tipos de gramática diferentes, o primeiro corresponde à Gramática Normativa, isto é, regras utilizadas pelos falantes/ouvintes a fim de aprenderem a “escrever e falar corretamente”, ou melhor, o não seguimento dessas regras implicaria em sanções nada positivas, socialmente falando, porque se alguém diz, por exemplo, “nóis vai”, uma das primeiras coisas que as pessoas podem dizer é que fulano fala “errado” ou no mínimo esquisito, estranho, e quase sempre não se admitiria que se pudesse falar diferente.
No segundo conceito, percebe-se que a gramática não funcionaria apenas para descrever uma única variedade da língua e classificá-la como “certa” ou “errada”, mas sim, procurar-se-ia descrever uma língua; levando em conta às infinitas possibilidades de construções que esta língua possui, e isso inclui um grande número de variedades pertencentes a um determinado sistema lingüístico.
No terceiro conceito, este tipo de gramática também é conhecido por Gramática Internalizada ou Natural, isto é, conjunto de regras que o falante domina, as quais lhe permite produzir sentenças lingüísticas que tenham coerência, ou seja, façam sentido, tratando-se, assim, da Competência Lingüística inata ao falante/ouvinte de uma determinada língua; aliás esta Competência é que vai determinar quais as seqüências lingüísticas serão aceitas, ou não, dentro de uma determinada comunidade lingüística.
Por exemplo, é perfeitamente aceitável seqüências do tipo:
a) Os menino subiu na cadeira.
b) Eu vô apanhá as goiaba.
Por outro lado, penso ser inaceitáveis seqüências do tipo:
*c) A cadeira subiu nos meninos.
*d) As vão goiabas apanharem os meninos.
A não ser que uma dessas seqüências (no nosso caso, a seqüência (c)), pertença a uma área da Literatura conhecida como Realismo Fantástico, pois no mundo textual fictício, acredito que esta sentença poderia ser aceita, todavia não estamos tratando do mundo textual fictício. E ainda, em se tratando dessas duas sentenças, gostaríamos de dizer (mais uma vez) que a presença dos asteriscos se faz necessária, já que segundo os Lingüistas estes asteriscos são usados para mostrar que estas sentenças não são aceitas no português.
Além disso, no que se refere à Gramática Internalizada, Luft diria que o indivíduo nasce “programado” para falar.
Dessa forma, abordaremos, a seguir, as três concepções de linguagem construídas no transcorrer da História da Humanidade.
Segundo Koch (1997), foram construídas no decorrer da história humanidade três concepções distintas de linguagem, a saber: como representação (“espelho”) do mundo e do pensamento; como instrumento (“ferramenta”) de comunicação; como forma (“lugar”) de ação ou interação.
Dentre as três concepções acima mencionadas, a que mais interessa para este trabalho é a terceira, apesar de a primeira e a segunda serem muito defendidas, atualmente.
A primeira afirma que a linguagem serviria para representar o mundo e a realidade que nos cerca e ainda aquilo que pensamos sobre ela, dessa forma, a linguagem seria uma espécie de “espelho” por que perpassam nossos pensamentos e os seres vivos ou não os quais nos rodeiam.
A segunda mostra-nos que a linguagem seria centrada apenas na comunicação. A linguagem funcionaria somente para transmitir mensagens, pressupondo, assim, um emissor e um receptor ideal. Apesar de o processo de comunicação e a linguagem não serem tão simples assim como mostra a Teoria da Comunicação, porque as pessoas ao falarem não só comunicam o que estão falando, como também agem e reagem através da linguagem, desse modo, podem interromper quem fala e muitas vezes também são interrompidas, além de poderem produzir pausas, hesitações e ironias.
Além disso, há de se considerar o lugar de onde as pessoas falam, a imagem que elas têm umas das outras, a posição social dessas pessoas e ainda o que dizem e até o que não dizem dizendo, ou melhor, a questão dos não-ditos. Observando, ainda, principalmente; o contexto sócio-histórico e ideológico no qual esses interlocutores estão inseridos.
Na terceira concepção, percebemos que a linguagem seria fruto da interação entre enunciador/enunciatário, falante/ouvinte, autor/leitor, prestando-se não só como representação do pensamento, mas também como processo de comunicação, isto é, uma peça fundamental para a interação entre os seres humanos e, neste caso, a linguagem sofreria o que Travaglia[3] chama de “exterioridade” sócio-histórica e ideológica, ou melhor, a linguagem seria influenciada pelo contexto lingüístico e extralingüístico, pela ideologia e pela História, não só a oficial, mas também a história de cada indivíduo.
Embora diferentes, as três concepções de linguagem acima citadas, não são totalmente excludentes, complementam-se, inter-relacionam-se, posto que os falantes de certa língua, ao utilizá-la, estarão, concomitantemente, comunicando-se, pensando sobre o quê e como devem falar e ainda integrando-se no meio social do qual participam.
4. Conceitos de Literatura e conceito de cultura
Segundo o Houaiss (2001), temos vários conceitos de Literatura, dentre eles gostaríamos de elencar os seguintes: 1. ensino das primeiras letras (sic). 2. LIT. Uso estético da linguagem escrita; arte literária 3. Conjunto de obras literárias de reconhecimento do valor estético, pertencentes a um país, época, gênero etc. (...)
Sendo assim, essa palavra pode assumir ainda outras acepções, conforme Leite apud Geraldi (1997, p. 21), como veremos abaixo:
1. A Literatura como instituição nacional, como patrimônio cultural.
2. A Literatura como sistema de obras, autores e público.
3. A Literatura como disciplina escolar que se confunde com a história literária.
4. Cada texto consagrado pela crítica como sendo literário.
5. Qualquer texto, mesmo não consagrado, com intenção literária, visível num trabalho da linguagem e da imaginação, ou simplesmente esse trabalho enquanto tal.
Apesar das concepções de literatura anteriormente mencionadas, adotaremos a última, por acreditarmos que essa seja a melhor concepção de literatura para a constituição desse estudo.
Nesse aspecto, trataremos agora sobre o conceito de cultura, desse modo, cultura a nosso ver seria de acordo com Sarmento et al (2004, p. 12):
Não há povo que não se orgulhe de suas histórias, tradições e lendas. A produção literária de um povo faz parte do conjunto de atividades a que damos o nome de cultura – e a capacidade de criá-la é o que nos distingue dos outros seres.
Logo, a cultura compreende não só toda manifestação literária de um povo, mas também, toda manifestação artística desse mesmo povo, dessa maneira, a cultura se torna algo inerente exclusivamente ao ser humano, porque somente ele pode criar, modificar e interferir nas produções artísticas e literárias realizadas em uma determinada época ou período.
5. Semelhanças e algumas diferenças morfológicas, sintáticas e semânticas entre a Língua Inglesa e a Portuguesa e ainda sobre a questão da tradução
Iniciaremos essa penúltima parte mostrando o comportamento dos adjetivos em Português e em Inglês.
Nesse aspecto, procuraremos elencar, assim, as diferenças morfológicas no que tange à colocação do adjetivo nessas duas línguas, desse modo, também mostraremos as diferenças semânticas conseqüentes do comportamento dessa palavra nas duas línguas acima citadas.
Sabemos que em Inglês, o adjetivo possui uma posição fixa, sempre vem antes do substantivo, conforme veremos:
a. An old woman.
b. A new man.
c. A poor man.
Sendo assim, vejamos:
§ O exemplo (a) significa uma velha mulher ou uma mulher velha, percebemos nesse exemplo as diferenças semânticas oriundas dessa oração, quando traduzida para o Português, já que nessa língua o adjetivo pode vir tanto posposto quanto anteposto ao substantivo, o que não vale para o Inglês, por isso, no primeiro caso: uma velha mulher significaria uma mulher experiente, experimentada na vida, já o segundo caso: uma mulher velha significaria uma mulher avançada na idade, ou seja, corresponderia à faixa etária.
§ Já a letra (b) e (c), também traduzidas gerariam diferenças no que se refere à semântica de nossa língua materna, seria a mesma regra aplicada em (a), dessa maneira, observemos: em (b), teríamos um homem novo e um novo homem, acarretando, assim, diferenças na significação, porque um homem novo corresponderia à faixa etária, ou seja, um homem jovem, já um novo homem, seria um homem transformado, mudado. No entanto, a sentença (c) correspondente a um pobre homem ou a um homem pobre, deve ser compreendida respectivamente: um homem digno de piedade, misericórdia e a um homem com condições financeiras fracas.
Outra diferença morfológica que gostaríamos de salientar seria quanto ao emprego dos pronomes e o gênero em Inglês e em Português, porque sabemos ainda que no Inglês padrão existem três gêneros: o masculino – He, correspondente a Ele em nossa língua, o Feminino – She correspondente a Ela em Língua Portuguesa e, o pronome It – empregado exclusivamente para coisas e animais no Inglês, significando Ele ou Ela, já em nossa língua materna não existe o gênero neutro, somente o feminino e o masculino que, infelizmente, ainda muitos gramáticos os confundem com o conceito de sexo, ora todo ser tem gênero, entretanto nem todo ser apresenta sexo, por exemplo, temos os gêneros de mesa, porta, cadeira, computador, livro, mas, não possuem sexo.
Outro aspecto que nos chama a atenção é que no Inglês padrão não existe o pronome sujeito Tu, o que tem como supostamente parecido é o pronome You que funciona como você e não é considerado padrão em Português. Ou seja, o pronome Tu jamais funciona como sujeito em Inglês padrão. Não obstante, tanto no Português padrão ou popular como no Inglês padrão ou popular o pronome You poderá funcionar como sujeito.
Além disso, temos a mesma posição sintática canônica tanto no Inglês quanto no Português: SVO, sujeito + verbo + complemento, como por exemplo: Eu Amo meus amigos em Inglês seria: I love my friends. Onde o sujeito seria Eu, o verbo amo – transitivo direto, presente do indicativo, primeira pessoa do singular e, o objeto direto seria: meus amigos.
Dessa forma, quanto à tradução adotaremos o critério estipulado por Campos (1988), que chamou de Transcriação ao processo criativo, adaptado de acordo com o contexto e com a situação do texto produzido de tradução da Língua Inglesa para Portuguesa, desaconselhando, assim, a tradução puramente das palavras isoladas do contexto e da situação.
6. Considerações Finais
Do exposto, percebemos que a cultura, a linguagem, a literatura estão intrinsecamente relacionadas e ainda notamos que existem diferenças não só quanto ao aspecto gramatical de certas línguas, nesse caso, a Inglesa e Portuguesa, mas também diferenças quanto ao uso e, valorizando essas diferenças, além das sugestões expostas nesse trabalho, poderemos obter um ensino-aprendizado de nossa língua materna profícuo, produtivo, onde as diferenças não deverão ser motivos para discriminações, mas sim, para valorização de cada ser humano, indivíduo, independente da posição social, etnia, faixa etária ou até mesmo do tipo de linguagem que utiliza: a forma dita padrão ou a coloquial, já que aos indivíduos além da Constituição da República Federativa do Brasil garantir-lhes o direito de ir e vir, ela também deve assegurar-lhes o direito de expressarem adequadamente os seus pensamentos em quaisquer circunstâncias de comunicação ou interação social por que passem (sem que sejam cerceados por qualquer aparelho ideológico do Estado, seja esse a Igreja, a Escola, o próprio Estado ou qualquer Empresa privada existente nesse país), ratificando-lhes o direito de dizer realmente aquilo que pensam, sentem, pois, só assim teremos um país livre de verdade.
7. Referências
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PERINI, Mário Alberto. “Níveis de detalhamento na descrição gramatical: uma perspectiva pedagógica”. Nº12. Campinas, SP, IEL/UNICAMP, jul. - dez p.23-32.
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POSSENTI, Sírio (1996). Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP, ALB: Mercado de Letras.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos (1996). Gramática e interação: uma proposta para ensino de gramática no 1ª e 2ª graus. São Paulo: Cortez.
SARMENTO, Leila Lauar et al. (2004). Português: literatura, gramática e produção de texto. São Paulo: Moderna.
[1] Mestre em Lingüística, professor de Língua Portuguesa na Unijipa – União das Escolas Superiores de Ji-Paraná e da Escola Estadual de E. F. M. Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, localizada no Distrito de Nova Londrina cujo Município é Ji-Paraná-RO.
[2] Os Lingüistas costumam utilizar esse símbolo (*) para mostrar que as sentenças não são aceitas em uma determinada língua, nesse caso, em nossa Língua Materna.
[3] Para aprofundar mais a questão da “exterioridade”, ver: TRAVAGLIA, Luiz Carlos (1996). Gramática e Interação: uma proposta de gramática para o ensino de 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez.
Dessa forma, o nosso principal objetivo será mostrar algumas características no que concerne ao funcionamento da Língua Portuguesa, comparando-as com o funcionamento da Inglesa.
Nesse sentido, a relevância desse trabalho consiste em propor, a partir das diferenças e semelhanças entre a Língua Portuguesa e Inglesa, sugestões que acreditamos melhorará a qualidade do ensino-aprendizagem da nossa língua materna.
Sendo assim, adotaremos o seguinte critério para a construção desse texto:
a. Primeiramente trataremos da importância de se estipular previamente objetivos para o ensino-aprendizagem de nossa língua materna, dessa maneira, tentaremos, no transcorrer desse trabalho, responder às seguintes questões: por que ensinar língua materna a quem já fala com propriedade sua própria língua? Não seria mais fácil, mais lógico e coerente ensinar qualquer outra língua estrangeira?
b. Mostraremos ainda algumas concepções de gramática e de linguagem.
c. Discorreremos também sobre alguns conceitos de literatura e um conceito de cultura, que acreditamos serem importantes para a constituição desse estudo.
d. Faremos uma breve exposição sobre algumas semelhanças e diferenças morfológicas, sintáticas e semânticas entre a Língua Inglesa e Portuguesa, além disso, tentaremos propor um conceito de tradução que pensamos ser mais adequado no que tange à tradução do Inglês para o Português.
e. E para finalizar, teceremos as Considerações Finais acerca desse trabalho.
Objetivos do ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa: por que ensinar a língua materna a quem já a utiliza com certa propriedade? Não seria mais lógico ensinar uma língua estrangeira?
Esta questão possui em Travaglia (1996) quatro possíveis respostas:
1ª) Desenvolver a Competência Comunicativa dos usuários da língua, isto é, a capacidade do usuário de empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação.
A Competência Comunicativa estaria intimamente ligada com outras duas: a Gramatical ou Lingüística e a Textual.
A Competência Gramatical seria a capacidade do usuário da língua (falante/ouvinte, escritor/leitor, enunciador/enunciatário) de gerar seqüências lingüísticas gramaticais e aceitáveis.
Por seqüências lingüísticas gramaticais deve-se entender: seqüências lingüísticas aceitáveis, bem formadas, de acordo com regras intrínsecas da língua, como por exemplo:
a) O garoto está feliz.
b) “Nóis vamo pega as goiaba.”
c) “As moça de Rondonha é linda”.
Não se deve levar em conta nestes tipos gramaticais de sentenças juízo de valor, conceito esse que será retomado por nós mais adiante.
Sendo assim, as seqüências lingüísticas aceitáveis estariam intimamente ligadas com as gramaticais, porque quanto à aceitabilidade, teríamos seqüências lingüísticas admissíveis, aceitáveis como construções possíveis dentro do nosso sistema lingüístico, portanto, a aceitabilidade e a gramaticalidade estão intimamente ligadas e uma não existe independente da outra, lembrando ainda que para esses dois critérios não se deve levar em conta o que chamamos anteriormente de “juízo de valor lingüístico”, que seria supervalorizar uma variedade lingüística (no nosso caso, a dita padrão) em detrimento de outra variedade lingüística, a saber, a popular. Desse modo, vejamos:
‘a)[2] *“O está feliz garoto”.
‘b) * “Nóis as goiaba pegá vamo.”
‘c)* “As é linda moça de Rondonha”
Estas três sentenças são agramaticais e inaceitáveis, já que ferem a boa formação, estruturação da língua, acreditamos que sentenças como a’, b’, c’ seriam construções quase impossíveis a falantes nativos do português, a não ser que se estivesse na fase de apreensão e aquisição da linguagem, mesmo assim seria praticamente impossível a estes falantes construírem sentenças como a’, b’, c’ por causa da gramática internalizada, mas construções como a’, b’, c’ poderiam até ser admitidas por estrangeiros que estariam apreendendo português.
Já a Competência Textual seria a capacidade dos usuários da língua (locutor/ouvinte, escritor/leitor) de em situação de interação comunicativa compreender, produzir, textos considerados bem formados, valendo de capacidades básicas que segundo Charolles, um dos principais estudiosos da Lingüística Textual, seriam necessariamente as seguintes:
a)Capacidade Formativa – possibilita aos usuários compreender e produzir um número de textos basicamente ilimitados, além de poder avaliar a boa ou a má formação dos textos dados, isto é, poder ser capaz de dizer se um enunciado lingüístico é ou não um texto de acordo com critérios de textualidade previamente estabelecidos.
b)Capacidade Transformativa seria a possibilidade de os usuários da língua modificar de diferentes maneiras um texto: parafrasear, parodiar, resumir, etc.
c)Capacidade Qualificativa seria a possibilidade de os usuários poderem dizer a que tipo de texto pertence um texto dado, se é uma receita de alimento ou remédio, um ofício, uma carta, romance, reportagem, uma narração, uma descrição, uma argumentação ou dissertação, etc.
Por conseguinte, faz-se necessário para realização desse primeiro objetivo embasar o ensino-aprendizagem do português na produção, compreensão de textos, os mais variados possíveis.
Na segunda resposta são englobados mais dois objetivos que são ou deveriam ser preocupações nossas, professores de português, isto é:
a) levar o aluno a “dominar” a norma culta ou padrão;
b) ensinar a variedade escrita da língua.
Estes dois objetivos se justificam, porque quando um aluno começa a ir à escola pressupõe-se que já domine a norma coloquial e ainda por razões políticas, sociais e culturais, deve-se ensinar a variedade escrita da língua, porém o ensino do português não deve se restringir, exclusivamente, somente a estes dois objetivos, já que nem sempre o falante/ouvinte, escritor/leitor estarão utilizando, unicamente, a norma culta ou escrevendo.
Assim sendo, admitimos que esses dois objetivos são mais restritos do que realmente se pretende: desenvolvimento da Competência Comunicativa, já que se almeja que o usuário da língua seja capaz também de utilizá-la nas mais diversas situações possíveis de interação, considerando o contexto sócio-histórico-ideológico no qual o sujeito está ou não inserido.
A terceira resposta diz que um dos objetivos do ensino da nossa língua materna é levar o educando ao conhecimento da instituição lingüística, social que a língua é, ao conhecimento de sua forma e função, esse conhecimento seria importante na mesma medida em que se considera importante reconhecer outras instituições de nossa sociedade, ou melhor, casamento,religiões, justiça, congresso, instituição bancária, etc. É o que Perini(1988, p.24) chama de “Conhecimento Cultural”, ou seja, “saber que correr é um verbo e que Colombo descobriu a América em 1492.”Este tipo de conhecimento ainda é conhecido como Conhecimento de Mundo ou Extralingüístico.
A quarta resposta propõe que o ensino do português seja embasado também no que se denominou de Atividades Metalingüísticas, isto é, ensinar gramática normativa, não obstante deve-se lembrar que não existe um único tipo de gramática, ou melhor, não existe somente a gramática ensinada pela escola, para aprofundar mais esta questão basta consultar os livros que citaremos ao final desse estudo.
3. Concepções de gramática e linguagem
Existem vários conceitos de gramática, porém, mostraremos somente três que pensamos ser relevantes para esse estudo a que nos propomos, por isso, vejamos como Possenti (1996:62-64) trata desta questão: “1 – Conjunto de regras que devem ser seguidas; 2 – Conjunto de regras que são seguidas; 3 – Conjunto de regras que o falante domina.”
Esses três conceitos de gramática poderão gerar três tipos de gramática diferentes, o primeiro corresponde à Gramática Normativa, isto é, regras utilizadas pelos falantes/ouvintes a fim de aprenderem a “escrever e falar corretamente”, ou melhor, o não seguimento dessas regras implicaria em sanções nada positivas, socialmente falando, porque se alguém diz, por exemplo, “nóis vai”, uma das primeiras coisas que as pessoas podem dizer é que fulano fala “errado” ou no mínimo esquisito, estranho, e quase sempre não se admitiria que se pudesse falar diferente.
No segundo conceito, percebe-se que a gramática não funcionaria apenas para descrever uma única variedade da língua e classificá-la como “certa” ou “errada”, mas sim, procurar-se-ia descrever uma língua; levando em conta às infinitas possibilidades de construções que esta língua possui, e isso inclui um grande número de variedades pertencentes a um determinado sistema lingüístico.
No terceiro conceito, este tipo de gramática também é conhecido por Gramática Internalizada ou Natural, isto é, conjunto de regras que o falante domina, as quais lhe permite produzir sentenças lingüísticas que tenham coerência, ou seja, façam sentido, tratando-se, assim, da Competência Lingüística inata ao falante/ouvinte de uma determinada língua; aliás esta Competência é que vai determinar quais as seqüências lingüísticas serão aceitas, ou não, dentro de uma determinada comunidade lingüística.
Por exemplo, é perfeitamente aceitável seqüências do tipo:
a) Os menino subiu na cadeira.
b) Eu vô apanhá as goiaba.
Por outro lado, penso ser inaceitáveis seqüências do tipo:
*c) A cadeira subiu nos meninos.
*d) As vão goiabas apanharem os meninos.
A não ser que uma dessas seqüências (no nosso caso, a seqüência (c)), pertença a uma área da Literatura conhecida como Realismo Fantástico, pois no mundo textual fictício, acredito que esta sentença poderia ser aceita, todavia não estamos tratando do mundo textual fictício. E ainda, em se tratando dessas duas sentenças, gostaríamos de dizer (mais uma vez) que a presença dos asteriscos se faz necessária, já que segundo os Lingüistas estes asteriscos são usados para mostrar que estas sentenças não são aceitas no português.
Além disso, no que se refere à Gramática Internalizada, Luft diria que o indivíduo nasce “programado” para falar.
Dessa forma, abordaremos, a seguir, as três concepções de linguagem construídas no transcorrer da História da Humanidade.
Segundo Koch (1997), foram construídas no decorrer da história humanidade três concepções distintas de linguagem, a saber: como representação (“espelho”) do mundo e do pensamento; como instrumento (“ferramenta”) de comunicação; como forma (“lugar”) de ação ou interação.
Dentre as três concepções acima mencionadas, a que mais interessa para este trabalho é a terceira, apesar de a primeira e a segunda serem muito defendidas, atualmente.
A primeira afirma que a linguagem serviria para representar o mundo e a realidade que nos cerca e ainda aquilo que pensamos sobre ela, dessa forma, a linguagem seria uma espécie de “espelho” por que perpassam nossos pensamentos e os seres vivos ou não os quais nos rodeiam.
A segunda mostra-nos que a linguagem seria centrada apenas na comunicação. A linguagem funcionaria somente para transmitir mensagens, pressupondo, assim, um emissor e um receptor ideal. Apesar de o processo de comunicação e a linguagem não serem tão simples assim como mostra a Teoria da Comunicação, porque as pessoas ao falarem não só comunicam o que estão falando, como também agem e reagem através da linguagem, desse modo, podem interromper quem fala e muitas vezes também são interrompidas, além de poderem produzir pausas, hesitações e ironias.
Além disso, há de se considerar o lugar de onde as pessoas falam, a imagem que elas têm umas das outras, a posição social dessas pessoas e ainda o que dizem e até o que não dizem dizendo, ou melhor, a questão dos não-ditos. Observando, ainda, principalmente; o contexto sócio-histórico e ideológico no qual esses interlocutores estão inseridos.
Na terceira concepção, percebemos que a linguagem seria fruto da interação entre enunciador/enunciatário, falante/ouvinte, autor/leitor, prestando-se não só como representação do pensamento, mas também como processo de comunicação, isto é, uma peça fundamental para a interação entre os seres humanos e, neste caso, a linguagem sofreria o que Travaglia[3] chama de “exterioridade” sócio-histórica e ideológica, ou melhor, a linguagem seria influenciada pelo contexto lingüístico e extralingüístico, pela ideologia e pela História, não só a oficial, mas também a história de cada indivíduo.
Embora diferentes, as três concepções de linguagem acima citadas, não são totalmente excludentes, complementam-se, inter-relacionam-se, posto que os falantes de certa língua, ao utilizá-la, estarão, concomitantemente, comunicando-se, pensando sobre o quê e como devem falar e ainda integrando-se no meio social do qual participam.
4. Conceitos de Literatura e conceito de cultura
Segundo o Houaiss (2001), temos vários conceitos de Literatura, dentre eles gostaríamos de elencar os seguintes: 1. ensino das primeiras letras (sic). 2. LIT. Uso estético da linguagem escrita; arte literária
Sendo assim, essa palavra pode assumir ainda outras acepções, conforme Leite apud Geraldi (1997, p. 21), como veremos abaixo:
1. A Literatura como instituição nacional, como patrimônio cultural.
2. A Literatura como sistema de obras, autores e público.
3. A Literatura como disciplina escolar que se confunde com a história literária.
4. Cada texto consagrado pela crítica como sendo literário.
5. Qualquer texto, mesmo não consagrado, com intenção literária, visível num trabalho da linguagem e da imaginação, ou simplesmente esse trabalho enquanto tal.
Apesar das concepções de literatura anteriormente mencionadas, adotaremos a última, por acreditarmos que essa seja a melhor concepção de literatura para a constituição desse estudo.
Nesse aspecto, trataremos agora sobre o conceito de cultura, desse modo, cultura a nosso ver seria de acordo com Sarmento et al (2004, p. 12):
Não há povo que não se orgulhe de suas histórias, tradições e lendas. A produção literária de um povo faz parte do conjunto de atividades a que damos o nome de cultura – e a capacidade de criá-la é o que nos distingue dos outros seres.
Logo, a cultura compreende não só toda manifestação literária de um povo, mas também, toda manifestação artística desse mesmo povo, dessa maneira, a cultura se torna algo inerente exclusivamente ao ser humano, porque somente ele pode criar, modificar e interferir nas produções artísticas e literárias realizadas em uma determinada época ou período.
5. Semelhanças e algumas diferenças morfológicas, sintáticas e semânticas entre a Língua Inglesa e a Portuguesa e ainda sobre a questão da tradução
Iniciaremos essa penúltima parte mostrando o comportamento dos adjetivos em Português e em Inglês.
Nesse aspecto, procuraremos elencar, assim, as diferenças morfológicas no que tange à colocação do adjetivo nessas duas línguas, desse modo, também mostraremos as diferenças semânticas conseqüentes do comportamento dessa palavra nas duas línguas acima citadas.
Sabemos que em Inglês, o adjetivo possui uma posição fixa, sempre vem antes do substantivo, conforme veremos:
a. An old woman.
b. A new man.
c. A poor man.
Sendo assim, vejamos:
§ O exemplo (a) significa uma velha mulher ou uma mulher velha, percebemos nesse exemplo as diferenças semânticas oriundas dessa oração, quando traduzida para o Português, já que nessa língua o adjetivo pode vir tanto posposto quanto anteposto ao substantivo, o que não vale para o Inglês, por isso, no primeiro caso: uma velha mulher significaria uma mulher experiente, experimentada na vida, já o segundo caso: uma mulher velha significaria uma mulher avançada na idade, ou seja, corresponderia à faixa etária.
§ Já a letra (b) e (c), também traduzidas gerariam diferenças no que se refere à semântica de nossa língua materna, seria a mesma regra aplicada em (a), dessa maneira, observemos: em (b), teríamos um homem novo e um novo homem, acarretando, assim, diferenças na significação, porque um homem novo corresponderia à faixa etária, ou seja, um homem jovem, já um novo homem, seria um homem transformado, mudado. No entanto, a sentença (c) correspondente a um pobre homem ou a um homem pobre, deve ser compreendida respectivamente: um homem digno de piedade, misericórdia e a um homem com condições financeiras fracas.
Outra diferença morfológica que gostaríamos de salientar seria quanto ao emprego dos pronomes e o gênero em Inglês e em Português, porque sabemos ainda que no Inglês padrão existem três gêneros: o masculino – He, correspondente a Ele em nossa língua, o Feminino – She correspondente a Ela em Língua Portuguesa e, o pronome It – empregado exclusivamente para coisas e animais no Inglês, significando Ele ou Ela, já em nossa língua materna não existe o gênero neutro, somente o feminino e o masculino que, infelizmente, ainda muitos gramáticos os confundem com o conceito de sexo, ora todo ser tem gênero, entretanto nem todo ser apresenta sexo, por exemplo, temos os gêneros de mesa, porta, cadeira, computador, livro, mas, não possuem sexo.
Outro aspecto que nos chama a atenção é que no Inglês padrão não existe o pronome sujeito Tu, o que tem como supostamente parecido é o pronome You que funciona como você e não é considerado padrão em Português. Ou seja, o pronome Tu jamais funciona como sujeito em Inglês padrão. Não obstante, tanto no Português padrão ou popular como no Inglês padrão ou popular o pronome You poderá funcionar como sujeito.
Além disso, temos a mesma posição sintática canônica tanto no Inglês quanto no Português: SVO, sujeito + verbo + complemento, como por exemplo: Eu Amo meus amigos em Inglês seria: I love my friends. Onde o sujeito seria Eu, o verbo amo – transitivo direto, presente do indicativo, primeira pessoa do singular e, o objeto direto seria: meus amigos.
Dessa forma, quanto à tradução adotaremos o critério estipulado por Campos (1988), que chamou de Transcriação ao processo criativo, adaptado de acordo com o contexto e com a situação do texto produzido de tradução da Língua Inglesa para Portuguesa, desaconselhando, assim, a tradução puramente das palavras isoladas do contexto e da situação.
6. Considerações Finais
Do exposto, percebemos que a cultura, a linguagem, a literatura estão intrinsecamente relacionadas e ainda notamos que existem diferenças não só quanto ao aspecto gramatical de certas línguas, nesse caso, a Inglesa e Portuguesa, mas também diferenças quanto ao uso e, valorizando essas diferenças, além das sugestões expostas nesse trabalho, poderemos obter um ensino-aprendizado de nossa língua materna profícuo, produtivo, onde as diferenças não deverão ser motivos para discriminações, mas sim, para valorização de cada ser humano, indivíduo, independente da posição social, etnia, faixa etária ou até mesmo do tipo de linguagem que utiliza: a forma dita padrão ou a coloquial, já que aos indivíduos além da Constituição da República Federativa do Brasil garantir-lhes o direito de ir e vir, ela também deve assegurar-lhes o direito de expressarem adequadamente os seus pensamentos em quaisquer circunstâncias de comunicação ou interação social por que passem (sem que sejam cerceados por qualquer aparelho ideológico do Estado, seja esse a Igreja, a Escola, o próprio Estado ou qualquer Empresa privada existente nesse país), ratificando-lhes o direito de dizer realmente aquilo que pensam, sentem, pois, só assim teremos um país livre de verdade.
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[1] Mestre em Lingüística, professor de Língua Portuguesa na Unijipa – União das Escolas Superiores de Ji-Paraná e da Escola Estadual de E. F. M. Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, localizada no Distrito de Nova Londrina cujo Município é Ji-Paraná-RO.
[2] Os Lingüistas costumam utilizar esse símbolo (*) para mostrar que as sentenças não são aceitas em uma determinada língua, nesse caso, em nossa Língua Materna.
[3] Para aprofundar mais a questão da “exterioridade”, ver: TRAVAGLIA, Luiz Carlos (1996). Gramática e Interação: uma proposta de gramática para o ensino de 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez.
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